Fundação Cultural discute identidade cultural quilombola na 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro
Monitoras do Projeto 'Tem Leitura no Quilombo' compartilharam experiências e reflexões sobre ancestralidade, memória e pertencimento
A Fundação Cultural do Pará (FCP) promoveu, nesta quinta-feira (3), durante a 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, uma roda de conversa sobre o fortalecimento da ancestralidade e da identidade cultural de comunidades quilombolas. O encontro reuniu professoras e monitoras que participaram do Projeto “Tem Leitura no Quilombo”, desenvolvido pela Coordenadoria de Promoção da Leitura da FCP.
As monitoras Lette Trindade, Marcilene Santiago e Ana Alice Costa compartilharam experiências vivenciadas durante a realização das oficinas nos territórios quilombolas do Pará, destacando a importância da leitura, da escrita e da valorização das histórias locais como ferramentas que fortalecem o sentimento de pertencimento.
Para Semias Araújo, técnico em Gestão Cultural e responsável pelo Projeto “Tem Leitura no Quilombo”, a roda de conversa foi uma oportunidade para avaliar os impactos da iniciativa nas comunidades e entre os profissionais envolvidos.
“A proposta inicial desta roda de conversa teve como objetivo central refletir sobre o impacto do Projeto ‘Tem Leitura no Quilombo’ nas comunidades, nos participantes e nas professoras que atuaram como mediadoras das oficinas em seus respectivos territórios. Esse debate é fundamental para fortalecer a identidade da iniciativa, desenvolvida pela Coordenadoria de Promoção da Leitura, cuja essência reside no incentivo ao hábito de ler, aliado à disseminação de livros com foco na pesquisa, na ancestralidade e na cultura local”, ressaltou o técnico.
Segundo Semias Araújo, um dos diferenciais do projeto é o protagonismo das próprias comunidades na condução das atividades. Educadores dos territórios são convidados a atuar como mediadores das oficinas, contribuindo para que os conteúdos trabalhados estejam conectados às vivências e aos conhecimentos de cada localidade.
“Entendemos que essa abordagem é a mais pertinente, uma vez que a preservação da história e da identidade deve ser mediada por quem vivencia o cotidiano e detém o conhecimento sensível daquela cultura, evitando a intervenção externa em temas tão singulares”, explicou.
O projeto também estimula a escrita criativa como forma de registrar histórias, lendas, mitos e trajetórias das comunidades. A proposta valoriza ainda os conhecimentos transmitidos pelos griôs (guardiões da memória) e busca aproximar diferentes gerações, promovendo a troca de saberes entre anciãos, crianças e adolescentes.
“O projeto busca valorizar a sabedoria dos griôs, incentivando a transmissão de conhecimentos e vivências entre as gerações, conectando anciãos, crianças e adolescentes. Trata-se de uma iniciativa estruturada em temáticas específicas, que fomentam o fortalecimento dos laços comunitários e a salvaguarda da memória coletiva”, acrescentou Semias Araújo.
Vivências e pertencimento - A roda de conversa também foi marcada pelos relatos das monitoras que participaram diretamente das atividades nos territórios quilombolas. Lette Trindade, descendente de quilombolas e mediadora do encontro, atuou como monitora durante a passagem do projeto pelo quilombo de Nova Juntai, em Breu Branco, município do Sudeste paraense.
Para ela, a experiência proporcionou uma conexão entre diferentes trajetórias e histórias quilombolas. “Eu conheci todas as participantes da roda aqui, e é como se já nos conhecêssemos há muito tempo, como se nossas trajetórias estivessem destinadas a se encontrar. Já não eram relatos isolados. As histórias quilombolas se entrelaçam e se tornam uma só”, enfatizou.
Lette Trindade destacou que o projeto, realizado em maio de 2024 com estudantes do 7º e 8º anos, também contribuiu para que os participantes reconhecessem suas próprias histórias e fortalecessem o sentimento de pertencimento. Segundo ela, cerca de 35 alunos foram inscritos e 25 participaram ativamente das atividades.
“O Projeto ‘Tem Leitura no Quilombo’ foi fundamental, pois, ao escrever, a criança se reconhece nas palavras e desenvolve um forte senso de pertencimento — algo essencial para que o indivíduo se sinta acolhido em seu próprio espaço”, explicou.
A monitora também relaciona a iniciativa ao conceito de “escrevivência”, entendido como a possibilidade de escrever a partir da própria existência e das experiências vividas. “Quando o aluno se vê representado naquilo que ele mesmo escreveu ocorre um despertar. Ele compreende sua própria importância e o valor de registrar sua história, sua comunidade e a resistência do seu povo”, explicou.
Para Lette Trindade, o registro dessas narrativas é ainda mais significativo diante de um processo histórico de invisibilização das perspectivas negras, indígenas e quilombolas na historiografia brasileira.
Segundo ela, “muitas vezes, embora os territórios quilombolas sejam geograficamente pequenos, eles guardam histórias gigantescas de superação e luta. São comunidades que resistem em contextos de grande precariedade econômica, onde as pessoas vivem da produção de subsistência e enfrentam desafios diários para permanecer em seus territórios”.
Educação e reencontro - Ana Alice Costa, que atuou como monitora durante a passagem do projeto pelo quilombo do Abacatal, em Ananindeua (na Região Metropolitana de Belém), também compartilhou suas experiências durante a roda de conversa. Para ela, iniciativas como essa são importantes não apenas para quem vive nos territórios quilombolas, mas também para ampliar o conhecimento da sociedade sobre essas comunidades.
“A relevância deste espaço reside na possibilidade de afirmarmos nossa identidade, nossa origem, nossa história e nossa cultura. É fundamental fortalecê-la fora da comunidade, uma vez que ainda é desconhecida por muitos”, informou.
Durante cinco dias de atividades no quilombo, Alice contou que a experiência também provocou um reencontro pessoal com a educação e a escrita. Após cinco anos afastada da área, ela voltou a desenvolver atividades criativas e chegou a escrever um poema durante a experiência. “Foi uma vivência marcada por grandes emoções, trocas culturais e construção coletiva. Encerramos as atividades com o ‘Boi Gregorinho’, um projeto que eu mesma idealizei, desenhei e fundamentei quando lecionava. Foi um momento memorável”, afirmou.
Segundo Ana Alice Costa, inicialmente houve resistência em participar do projeto, justamente pelas experiências difíceis vivenciadas anteriormente na área da educação. No entanto, a participação nas atividades fez com que ela retomasse práticas que fizeram parte de sua trajetória como professora. Ela acrescentou que, “ao me envolver, reencontrei minha essência como docente: a idealização de projetos, a escrita criativa e o estímulo à autonomia dos alunos. Aquilo trouxe de volta a forma como eu costumava trabalhar. A educação é algo intrínseco a mim. Tanto que, por onde passo, ainda me chamam de professora”.
A roda de conversa reforçou a importância de criar espaços para que as próprias comunidades quilombolas sejam protagonistas na preservação e na difusão de suas histórias, saberes e identidades. A programação integra as ações da Fundação Cultural do Pará na 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, que promove encontros voltados à literatura, à cultura e à valorização da diversidade amazônica.
Texto: Ascom/FCP
Por Comunicação (Feira do Livro)





