HOMENAGEADOS


Zeneida Lima

Nascida em Soure, no Marajó, em 21 de junho de 1934, foi a terceira de uma família de 12 filhos. De sua mãe, Maria José de Andrade Figueira de Lima, herdou a conexão com o cristianismo e, de seu pai, Angelino Rodrigues de Lima, o amor e os cuidados com a natureza, era ele que a ensinava a plantar e a cultivar.
A pequena Zeneida nasceu predestinada ao Pajeísmo, quando ainda em feto, chorou dentro da barriga de sua mãe, característica que só os pajés possuem. Havia nascido com o dom da cura e teria que seguir seu destino, guiada pelas forças da Natureza e pelos Caruanas, as misteriosas e mágicas energias das águas.
Aos 11 anos Zeneida foi sentada Pajé, quando iniciou o longo aprendizado sobre os mistérios da pajelança cabocla, as cerimônias das curas e os rituais místicos orquestrados pelo Caruana Norato Antônio, que possui o dom da cura e da sabedoria.
Aos 17 anos, já casada, Zeneida mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveria por 27 anos. Ao voltar ao Pará, deparou-se com uma nova pajelança sendo praticada por outros pajés, que assimilavam diferentes práticas e crenças. Temendo o desaparecimento das ricas manifestações dos Caruanas, Zeneida resolve deixar como legado para futuras gerações esse registro da verdadeira e autêntica pajelança cabocla e caruana. Nasce aí o seu primeiro livro: "O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó".
Há 22 anos, ao lado da escritora Raquel de Queiroz, Zeneida funda a Fundação Caruanas do Marajó, Cultura e Ecologia, com a presença e testemunha de Neguinho da Beija-Flor. O projeto nasceu de um sonho de criança de D. Zeneida em ajudar crianças desprotegidas e que vivem em zona de risco. Hoje, a escola acolhe aproximadamente 300 crianças, que não são aceitas nas escolas convencionais por conta de suas origens infinitamente pobres e algumas por pertencerem às famílias marginalizadas. Por lá já passaram mais de três mil crianças.
D. Zeneida, 87 anos, é o último elo da tribo dos Sacaca, índios que possuíam o precioso dom da cura e da sabedoria. Além de ter o dom da cura através do Caruana Norato Antônio, tem um respeito absoluto com a natureza e planta e refloresta em todos os lugares por onde anda.
Em 2008, Zeneida Lima recebeu o Prêmio Brasileiro Imortal da Companhia Vale e tornou-se imortalizada em uma espécie da Mata Atlântica chamada "Anturio Quilhado", que foi descoberta na Reserva Natural Vale, no município de Linhares, no Espírito Santo.


Vicente Cecim

Descendente de brasileiros amazônicos e de libaneses e sardos emigrantes, Vicente Cecim nasceu e viveu na Amazônia. Quando seu filho Franz — em memória de Kafka — foi assassinado, jovem, abrigou no seu o nome do filho e passou a escrever seus livros visíveis de Andara como Vicente Franz Cecim. Mas a concepção de Viagem a Andara oO livro invisível, livro não escrito, puramente Imaginal, se atribui, miticamente, a Cecim da AmazoOnia, em gesto de doação de toda a sua obra àquela que chama de a Floresta Sagrada.
Desde 1979, Cecim gera Viagem a Andara oO livro invisível, o não-livro que escreve com tinta invisível. E seus livros visíveis, escritos, emergem dessa literatura fantasma como emissões da física e metafísica Andara, trans-figuração da Amazônia em região-metáfora da vida. Em 1983 seu Manifesto Curau/Flafrados em delito contra a noite, lançado durante a primeira SBPC, em Belém, foi uma reflexão e um apelo à insurreição poética e política da Amazônia, o Imaginário da região e a invenção de Andara. Denúncia contra o crime de não sonhar.
Vicente recebeu menção especial no Prêmio Internacional Plural, México, em 1981, com Os jardins e a noite – sob o título A Noite do Curau - revelação de autor em 1980 por Os animais da terra e, em 1988, Grande Prêmio da Crítica, dois prêmios da APCA— Associação Paulista de Críticos de Artes, o segundo pelos sete primeiros livros de Andara, reunidos em Viagem a Andara, nessa década também dado a Hilda Hilst, Cora Coralina, Mario Quintana e, na seguinte, a Manoel de Barros. Transcriados, foram relançados em A asa e a serpente e Terra da sombra e do não, em 2004. Em 1994, quatro novos livros em Silencioso como o Paraíso, avançaram na conversão da sua literatura em pura escritura.
Passando a publicar seus novos livros em Portugal, em 2001, Ó Serdespanto, livro duplo reeditado pela Bertrand Brasil em 2006, foi apontado pela crítica portuguesa no jornal Público como o segundo melhor do ano e Cecim foi saudado por Eduardo Prado Coelho como "Uma revelação extraordinária!". O lançamento em Portugal de K O escuro da semente, em 2005, inaugurou nova fase em sua linguagem, a Iconescritura, mescla de palavras, silêncio de páginas em branco e imagens, prolongada em 2008 com oÓ: Desnutrir a pedra e, em 2014, com Breve é a febre da terra, que recebeu o Prêmio de Romance Haroldo Maranhão da Casa das Artes.
Em 2015 publicou Fonte dos que dormem, pela editora Córrego, e em 2016 saiu a edição brasileira de K O escuro da semente, pela editora LetraSelvagem, ambas de São Paulo — sendo K apontado como um dos quatro finalistas ao Prêmio Livro de Poesia do Ano pela APCA. Este volume revela os inéditos e mais recentes livros visíveis de Andara: oO Círculo suas Rendas de Fogo, Coisas escuras procurando a luz com dedos finos cheios de ervas e também Oniá — reunidos no conjunto Oniá um Lugar cintilante.
Jornalista profissional, se iniciou na profissão em 1967. Antes de iniciar sua obra literária, Cecim realizou em super-8 nos anos 70 o ciclo de filmes kinemAndara, agora exibidos em versão digital. E suas reflexões sobre o cinema evocam a permanente tensão de sua escrita entre o visível e o invisível. Voltou a filmar quase trinta anos depois, em 2007, para fazer com seu filho Bruno Cecim (fotógrafo e cineasta) o filme Marráa Yaí Makúma - Aquele que dorme sem sono, disponível no YouTube e no Vimeo entre outros vídeos. Entre seus filmes mais recentes, constam: A Lua é o Sol, Fonte dos que dormem e K+afka.