Guitarrada de Mestre Vieira e literatura de terror pautam a tarde de domingo (05), último dia da 24ª Feira do Livro e das Multivozes


Mestre Vieira foi tema da Roda de Conversa que abriu a programação deste domingo (05), último dia da Feira do Livro

O inventor de um som sem palavras foi o assunto que abriu a tarde deste domingo (05) na Arena Multivozes. A jornalista e produtora cultural Luciana Medeiros e o historiador Luiz Antônio Guimarães participaram de um debate sobre o tema "Mestre Vieira: patrimônio da guitarrada paraense". 

A programação foi realizada em homenagem a Mestre Vieira, criador do gênero que completa 10 anos sendo elevado à categoria de patrimônio imaterial do estado. A mediação ficou por conta de Bruno Rabelo, músico e pesquisador que atuou ao lado do mestre e que também é presidente do Clube da Guitarrada. 

No dia dedicado às "vozes da tecnologia" na 24ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, Vieira foi celebrado como um gênio à frente de seu tempo. O artista será biografado em um documentário dirigido por Luciana Medeiros.

Para os debatedores, as inovações artísticas de Vieira o colocam como um artista à frente do seu tempo

Falecido em 2018, o guitarreiro foi produzido pela jornalista por mais de uma década. Foi por isso que ela decidiu se debruçar sobre a vida e a obra do ícone instrumentista. 

"Quando o conheci, fiquei espantada com a quantidade de vivência que ele tinha e que não vinha à tona como deveria. Entendi que eu tinha que fazer algo com ele. Aprendi a produzir do zero para acompanhá-lo", relembra. "A minha preocupação era como isso ia ser passado para as próximas gerações. O objetivo era salvaguardar esse legado", explica a diretora do documentário, que está em fase de finalização.

Que Vieira era um visionário, todos os presentes na roda concordam. Mas um ponto em particular chama a atenção na vida do mestre: sua simplicidade. "Ele soube ler sua realidade para além das fronteiras, mas nunca deixou de ser um morador local", comentou o historiador Luiz Antônio, que foi seu vizinho em Barcarena, onde o músico nasceu.

 "Para nós, ele era Seu Joaquim, eletrotécnico que consertava rádios. Sua trajetória como músico passou pela igreja, pelo bar, pelas casas onde tocava seresta... A gente estava acostumado a vê-lo tocando nas festas de Círio com a guitarra nos ombros e aquilo nos parecia natural. E não era algo normal, era um fenômeno", observou. 

A jornalista Luciana Medeiros e o historiador Luiz Antônio Guimarães conduziram a conversa sobre o guitarreiro visionário de Barcarena

O mediador Bruno Rabelo complementou: "às vezes a gente não tem noção da pepita de ouro que tem aqui. O Vieira atravessou a vida tendo que se provar como o guitarrista incrível que ele era". Em homenagem ao mestre, o show que encerra a Feira neste domingo é do grupo Os Dinâmicos - banda da qual o guitarreiro fez parte.

Terror e tecnologia

Dando continuidade à programação no palco da Arena, o Papo Cabeça trouxe uma conversa da jornalista Amanda Campelo com o escritor Andrei Simões. Abordando subgêneros como terror social e realismo fantástico, o autor independente se dedica às escritas do medo há anos, mas vem apresentando novas modalidades de leitura utilizando a tecnologia como condutora. Foi esse o tema da conversa, que abordou "Outras Formas de Ler". 

Andrei resolveu disponibilizar toda sua obra em plataformas virtuais, além de lançar conteúdos também em audiobook. "Sempre gostei de andar pelas bordas e limites do que é entendido como arte", resume ele, que também é biólogo, mestre em comportamento e professor universitário. 

Simões acredita que o trabalho que faz é regional, embora não seja um marco do seu estilo recorrer às referências específicas do Norte. 

"Nosso terror é crepuscular. Acontece muito cedo com o trânsito, a violência, o calor que muda o humor do paraense. Então enveredei por esse caminho pra tentar entender o que é o terror em Belém. Somos uma realidade muito urbana, mas cercada por um rio muito poderoso. Todo mundo tem uma história de visagem", argumenta. "Então utilizo cenários nossos, uma cidade de 400 anos que respira o sobrenatural".

Sobre a abordagem virtual de sua literatura, Andrei entende que é uma maneira de potencializar o alcance. "É muito difícil pro escritor independente manter suas obras vendáveis. Por isso, resolvi disponibilizar todos os meus livros numa plataforma virtual, para viabilizar a distribuição", explica ele, que tenta conciliar a exposição nas redes com sua personalidade introvertida. 

Papo Cabeça discutiu o terror paraense e novas modalidades de leitura utilizando a tecnologia

"A luta é diária e árdua. Hoje existe uma pressão de que pra você ter sucesso em sua profissão você precisa ser uma espécie de influencer. Eu ainda acredito que minha obra é mais importante que a minha pessoa". Após a conversa, as artistas performáticas Condessa Devonriver Of Devonshire e Dangela do Curió fizeram uma intervenção artística baseada no conto "Imputrefato", de Andrei - veiculado como áudio na Feira unindo música, literatura, teatro e arte drag.

Texto: Camila Barbalho

05/12/2021 18h17 - Atualizada em 05/12/2021 19h43
Por Ascom (Feira do Livro)